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VIAGEM AO CHILE
por: David Avelar
1982.
Argentina e Chile disputam a região do Canal de Beagle. Orlando
Orfei decide estrear nTeatro Caupolican em Santiago. O Circo estava em
Rafaela uma cidade no interior da Argentina. Rafaela é conhecida
como "Ciudad de las naranjas" por ser totalmente arborizada com laranjeiras.
O que vemos nesta foto é a praça principal. As águas
dançantes estavam no Rio de Janeiro para manutenção
quando recebemos a ordem de ir encontrar o Circo em Rafaela. Eu
segui de avião até Buenos Aires e de lá para Rafaela
num vôo doméstico.
A fonte seguiu por terra, escoltada por
um trailler construído sob medida para esse fim, com três
componentes: Antonio Moura, um mestre marceneiro
e “pau para toda a obra”. Dorival um especialista em fibra-de-vidro e Carlão
que nunca tinha visto neve na vida dele e o mais perto que tinha chegado
dela era quando abria a geladeira.
Para enfrentar o frio rigoroso dos Andes o trailler
foi construído de um frigorifico de sorvete e acomodava três
pessoas deitadas. Para ser sincero funcionava muito bem, partindo do principio
que o que sai não entra ou seja se era bom para preservar sorvetes
abaixo de 0 grau também era bom para manter o calor de nossos corpos.
Até hoje guardo como “souvennir” a carcaça da nossa aventura.
Nossa viagem começa com destino a Mendonza atravessando 40
km do deserto que antecede à Cordilheira Andina. Em Mendonza tratamos
de fazer um estoque do famoso vinho tinto em garrafão de 20 litros
e de carne para o churrasco.
A viagem realmente começou quando pudemos
vislumbrar o que vinha pela frente. Os contrafortes dos Andes ainda sem
neve na sua base, nos davam uma idéia do que seria esta aventura.
Saímos dos 40 graus do deserto para os
10 graus da subida. Com a carreta da fonte à nossa frente, iamos
encontrar o resto do Circo em Uspallata uma vila a 3.000 metros de altura.
A estrada era tortuosa e tínhamos a impressão o tempo tinha
parado naquela região.
A não ser pela rodovia e alguns postos
de gasolina, as montanhas escarpadas enrugadas por milênios de erosões
glaciais pareciam ainda inexpugnáveis.
A paisagem num momento parece cruel, sem
vida, mas usando a imaginação podemos sentir toda a energia
telúrica dos elementos.
Os contrastes são extremos e temos a certeza
de não somos nada ante a força daquele lugar. Ao som
de Gardel, paramos mais vez para um churrasco regado a vinho e picles.
O Dorival decidiu então se entregar aos “males de Baco”, potencializados
pelo ar rarefeito de média altura (1.550 m) a que nos encontrávamos.
Nesta foto podemos vê-lo dormindo pendurado
numa árvore tal morcego, já manifestado pelo efeitos etílicos
do rascante vinho argentino.
Por nós ainda passavam algumas carretas
retardatárias. Mas estávamos extasiados com paisagem e nossa
meta era aproveitar de todo aquele esplendor. Cada pôr-do-sol era
uma poesia.
Imaginem uma troca de cenário a cada hora.
Assim é! Paramos para dormir num posto de gasolina. Eu, Antonio
e Dorival dormiríamos o primeiro turno no trailler enquanto que
o Carlão iria dormir na cabine. Lá pela tantas da manhã
acordamos com o tremor do veículo. Era o Carlão todo encasacado
com um gorro enfiado na cabeça deixando apenas ver os olhos arregalados
de frio. Uma cena digna de um filme de Carlitos.
Já estávamos a 4500 metros e atrás
de nós o Monte Aconcágua (6.959m) parecia um morro.
Uma das aventuras mais perigosas foi esta foto
tirada pos nós numa geleira que só depois que fizemos silêncio
para a foto é que descobrimos que era um rio e escutávamos
as águas correndo por debaixo de nossos pés.
A primeira parte de nossa aventura termina na
tavessia do tunel que liga a Argentina ao Chile.
Esta estória só foi possível
ser contada porque encontrei as provas-contato dos filmes que fizemos contrariando
as placas de "proíbido filmar ou fotografar". Por diversas vezes
fomos interceptados tanto por tropas argentinas como chilenas que nos ameaçavam
quebrar nosso equipamento.
Mas o circense é mágico.
Com palavras de amizade explicávamos que éramos de paz e
que nossa intenção era só documentar aquela viagem
fantástica.
Continua breve.................................................









